terça-feira, 1 de agosto de 2017

Aquele dia em que dá tudo errado


Aquele dia em que dá tudo errado... e é claro que vc sabe como é... 
Quando vc vai fazer o último treino antes da prova, e sente dor
Quando o seu match te dispensa, dizendo que não vê futuro (oi?)
Quando o seu crush não desenvolve
Quando vc vê que alguém quer um amor que comece simples, numa segunda-feira simples, e vc, simplesmente, não acredita mais nas segundas-feiras
Quando vc quer escrever, mas pra quê? Se foi isso mesmo que vc leu e te deixou angustiada...
Eu não acredito mais nas segundas-feiras, que é quando vc vê que o fim de semana foi uma merda. E frio. E vc passou frio sozinha. E vai ter que passar a semana inteira acreditando que o próximo fim de semana será melhor, que talvez alguma coisa diferente possa acontecer, que talvez é vc mesma que não esteja dando uma ajudinha para o destino, blá, blá, blá...
Quando vc percebe que até ir para o trabalho é melhor que ficar sozinha com vc mesma
Quando as suas roupas não combinam mais
Quando ter fome não faz sentido
Quando a insônia chega e te deixa parada
Quando vc se sente enfarada,
Quando até o seu cachorro sai do sofá quando vc senta...
É assim que está sendo o dia de hoje

Tipo um chinelo rasgado, um pneu de bicicleta furado, um óculos de sol quebrado. 
Tudo ao mesmo tempo. 
No sol. 
No meio do calçadão.

E eu só queria ouvir umas palavras: ele me perguntando o que eu queria dizer e me falando que queria me ouvir.
Simples.
Muito simples. 
Mas que não vai acontecer na segunda-feira.
Nem hoje.
Nem nunca.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O mar e o amor


É sempre sobre um mergulho no desconhecido
É sempre sobre algo novo
É sempre sobre manter-se em equilíbrio,
por mais que uma onda forte te arrebate
Só que o mar, é o mar
E o amor, bem, eu não sei o que é...

É sempre uma primeira sensação incômoda
É sempre um descompasso
É sempre sobre sua decisão de se atirar de cabeça, ou não,
Só que não decidi ainda.

Preciso alinhar em mim o vermelho, o amarelo e o verde
Minha cabeça está bloqueada
Meu coração está em alerta,
Embora todo o meu corpo já queira...

Mas o que vai ser isso?
Eu sinto, enquanto ainda nem tem forma,
Eu pressinto, enquanto nada se definiu
Então, eu abro espaços dentro de mim
para dar lugar ao novo,
Como se fosse mergulhar no mar:
Ele só está lá, um dia calmo; no outro, nem tanto
Um dia frio; no outro, nem tanto
Ele só está lá...

Então poderei decidir
Se quero mergulhar
Se quero brincar nessas águas geladas
Se quero sentir esse prazer.

Então poderei decidir
Como vai ser o mergulho,
O vigor das minhas braçadas,
Ou apenas a suavidade do momento.

Só não posso esquecer que o mar é imenso e implacável
(Só não posso esquecer que mais implacável ainda é o amor)
E também tem as suas vontades
E, apesar de eu escolher o momento do mergulho,
pode ser que ele não queira mais
ser mergulhado, ser arrebatado...

De nada servirá
alinhar em mim os três tempos
de um mesmo desejo...









quarta-feira, 3 de maio de 2017

     Eu já sei o que quero:
a suavidade na rotina da manhã
ver os primeiros raios do dia
acordar sem pressa
olhar o meu amor dormindo
e vê-lo despertar suavemente
quero sentir a brisa entrando pela cortina

     Eu já descobri o segredo:
até hoje vivi em ritmo rápido, intenso, afobado
agora estou pronta para pausar
quero absorver as primeiras coisas do meu dia
e quando eu acordar amanhã
vou prestar atenção nisso
no lento passear das nuvens
nos pássaros do parque
na cor do céu
no cheiro do ar
Vou sentir se está fresco ou calor
Vou abrir os meus olhos para a beleza

     Quero sentir com todo o meu corpo:
com os cheiros
com o olhar
ouvindo
quero sentir na minha pele
o beijo do meu amor
vou escrever com a ponta dos meus dedos
palavras doces nas costas dele
vou escrever poemas, hai kais,
enquanto ele dorme
e não vou acordá-lo ou invadi-lo
com a minha pressa, fúria, meus desejos ou confusões

     O que eu quero é bem simples:
pousar minha mão, suavemente, no seu corpo
observar o seu sono
devagar
até ele despertar
até o dia acordar

e colocar suavidade na rotina...

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Minha vida "short cuts"


 RASCUNHO

Hoje parece um daqueles dias densos.
Mas não sei se é o clima, se eu mesma...
O ar está pesado, o dia nublado, minhas tarefas são pontuadas por cafés e pensamentos.
Eu crio - enquanto cozinho -  Multitarefas: tudo o que não quero mais ser, mas faço tão bem.
Os sons da casa. 
Os cheiros da casa. 
A casa.
Algo úmido. Algo cinzento. Algo raro na cidade.
Eu estou de frente para o parque, com o Mestre Álvaro ao lado.
Posso ver algumas árvores, o campo de futebol e uma pequena elevação gramada, mas tudo está vazio e consigo ouvir o silêncio. Também escuto Marisa Monte, várias vezes. Não enjoo.
Os cheiros. As panelas fumegando na cozinha ao lado. "Quem me dera", Marisa me fala... "não sentir mais medo algum".
Pronto: começou a chover! Adeus natação de hoje... e comecei tão cedo para poder sair...
Às vezes penso que escrevo essas bobeiras à toa, que não têm nada de mais...
Às vezes chego a pensar também que não têm nada de menos - essas bobeiras - e eu, pelo menos, escrevo, tento tirá-las de dentro de mim. É muita coisa, são muitos pensamentos, sentimentos. É o peso do tempo, o peso da vida que escolhi e que agora, gradativamente, está ficando leve. 
Tanto tempo depois. Leve. Leveza é o que buscava e não sabia.
Hoje: a densidade do ar, o branco do céu, a gravidade embutida no ar que se respira.
E por isso também que lembrei de Short Cuts, filme de 1993, traduzido para Cenas da Vida. Um mosaico, em que diversos personagens se cruzam. Nunca esqueci. Narrativas cruzadas de cenas tão corriqueiras de vidas comuns. A pobreza e a riqueza da vida.
Assim como a minha, comum. Quem me vê, não me vê. Não sabe nada sobre mim. Como estou "do outro lado" do qual me mostro.
E sigo.
E Marisa de novo me falando que "amar alguém só pode fazer bem". Será?
Enfim, voltando ao dia nublado, às lembranças nítidas de um tempo enevoado, à busca da leveza, à "insustentável leveza do ser", fechando para um plano super close de agora... chove, mas estou leve; chove, mas é bom; chove e me atrapalhou, mas me deu tempo de pensar e escrever.
O dia chove, mas estou leve, alegre, braços abertos rodopiando na chuva.... braços abertos correndo bem rápido... braços abertos, sentindo a água... braços abertos, absorvendo a vida...
Chove, e vivo.... chove, e abro espaço para o novo... chove, e existe prazer dentro de mim... chove...



sexta-feira, 17 de março de 2017

Início

É o outro lado do fim
É o lado bom da dor
É a coragem que te levanta
É o dia seguinte
É quando você enxuga os olhos pela última vez
É quando você levanta a cabeça
É um suspiro
É quando o seu coração, finalmente, aceita
É quando você diz:

Basta!

É quando o seu coração, finalmente, escuta
O que a sua cabeça te dizia o tempo todo
É quando você se despe e,

nua,

Sai ao encontro de você mesma
É a melhor parte da jornada
É ver ao longo do caminho
É olhar para a frente
É fazer planos
É se preparar para partir
É a fome com a vontade de comer
É a vontade de devorar a vida
É a força
É a garra
É a gana
É o fim do fim
É o fim da dor
É o início, de novo...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Atlântico

Recolhi âncoras  e
Estou pronta para a partida.
Vou ao encontro de grande aventura,
Vou ao encontro de mim.
Não sou uma desconhecida,
Mas vou desbravar cada momento.
Começo explorando a alegria de viver,
A vontade de fazer coisas novas,
O desejo de me jogar no mundo.
Digo adeus - de vez - aos amores ingratos
(aqueles não correspondidos)
E levanto bandeiras:

- quero sorrir mais
- quero me divertir mais
- quero dividir mais

                  Zarpo!

Por isso o mar...
Estou treinando
Por isso as braçadas,
cada vez mais longas
Travessias...
O mar...
Eu o atravesso e ele me invade
E assim vamos:
unidos, salgados, juntos
nesta nova chance.
A cada vez que deslizo
na água gelada e salgada deste oceano,
 eu me pacifico,
E assim começo a construir
todos os mares e amores dentro de mim,
gota a gota, onda a onda
Deslizando
Partindo e chegando e partindo e chegando,
Quantas vezes precisar
O mar, amar

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Para 2017

Tenho 48 anos, dois filhos, dois cachorros e muita vontade de  viver.  Alguns fracassos, alguns sucessos e bastante tempo pela frente,  o que me faz refletir  e escrever. O que quero pra mim? O que quero para as minhas relações? É  possível apenas deixar fluir?  A felicidade se busca e se constrói  ou apenas se recebe, quando somos merecedores? O que é  a vida e o que fazemos dela? Como me encontro agora? O que quero? O que busco? O que almejo? Estou feliz nessa busca? O que me falta?
Eu não tenho nenhuma resposta, mas tenho a certeza de que o tempo de reflexão  é  agora.
Fim de ano e dias de arrumações,  externas e internas, e limpezas.  Quero estar bem. Com espaços.  Aberta. Confiante. Eu estou bem. Estou feliz. Estou com  saúde  e vencedora. Hoje eu enxergo melhor. Hoje eu me sinto feliz. Posso, realmente, desejar um feliz ano novo!  Para os meus, para mim,  para os que me rodeiam e para os que quero atrair. Um feliz ano novo! Hoje já está ótimo! Quero arregaçar  as mangas! Tenho muito a fazer!
Vem, 2017!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Cinza-chumbo

O céu está cinza-chumbo e chove no Mestre Álvaro, posso ver.
A par disso, problemas para resolver e algumas dores no coração.
Mas não importa.
Em dias como o de hoje, em que o cheiro de maresia se espalha pelo ar, feito um perfume, nenhum peso é pesado!
Caminho pelo cinza-chumbo, atravessando meu olhar para dentro.
Quanto mais eu olho ao longe, mais dentro de mim me encontro.
E se alguém me vir na rua ou mesmo me chamar, verá que flutuo absorta em pensamentos íntimos, que me são caros.
Volto ao passado, projeto o futuro, planejo o presente.
Tudo ao mesmo tempo, com os três planos se intercalando.
Acho que por isso confundo o que está para acontecer com o que já aconteceu.
Vivo tudo duas ou três vezes e mesmo assim nunca sei ao certo.
O chumbo.
A chuva.
A maresia.
E a vida invadindo os sonhos.

Preciso controlar a respiração para ter calma.
Preciso ter calma para controlar a vida.

Preciso mesmo controlar a vida?






quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Se o meu amor soubesse...


Se o meu amor soubesse o quanto eu o quero, faria diferença?
Ah!, meu querido, se eu pudesse, curaria tuas feridas por interesse próprio.

Quero beijar teus olhos, para você me ver com amor,
Quero beijar teus lábios, para que tuas palavras sejam doces comigo,
Quero beijar tuas mãos, para que você caminhe ao meu lado,
Quero beijar o teu peito, para que o teu coração se acalme,
Quero beijar teus cabelos, para que teus pensamentos fluam em direção a mim.

Se eu pudesse, com um abraço te protegia todo.
Faria você dar três voltas com os olhos vendados e, tirada a venda, te diria:
Segue! Segue o teu caminho em direção a mim, te espero faz tempo.
Estou de braços abertos te esperando.
Segue! Segue firme!
Confia em você, pois eu confio em mim e eu confio em nós.

Ah!, meu amor, você não vê que minha mão está estendida, esperando a tua?
Que meus olhos querem pousar nos teus?
Que meus beijos são todos teus?
Que se eu pudesse, moraria no teu sorriso?
Ah!, meu amor, vai ser bom, embora eu não possa prometer que seja para sempre!
Confia!

Ah!, se o meu amor soubesse, faria diferença?


sábado, 29 de outubro de 2016

Mar

Eu mergulhei no mar.
De cabeça.
Sozinha.
Por vontade própria.
Achei, como de costume, que só iria molhar as pontinhas dos pés.
Mas quando me vi, já estava inteira, no fundo, mergulhando e gostando.

Nunca desejei entrar no mar desse jeito. Tinha medo, até.
Mas agora, é um desafio, é para sempre, é vital.
E me faz falta.

O mar, sempre o mar!, assusta.
É imprevisível.
É instável.
É indecifrável.
Às vezes bravo, às vezes doce, às vezes me ignorando, às vezes flertando comigo.

E eu por tantos anos me escondi, fugi, fiquei só de fora, olhando.
Olhando e desejando.
Olhando e não acreditando que eu seria capaz.

Mas agora, não sei o que houve, eu criei coragem, 
Eu quis enfrentar os meus mais profundos medos, 
Eu quis fazer algo diferente, eu quis fazer algo por mim.
Então, não tão rápido assim, não sem hesitar, não sem dar umas braçadas erradas, eu fui.

Eu mergulhei no mar.
De cabeça.
Sozinha.
Por vontade própria.

E, apesar do medo, estou com coragem. 
Pode parecer um paradoxo, mas ambos residem em mim.
São sentimentos diferentes, velhos amigos de mãos dadas, que zombam de mim, 
que me acompanham em tudo o que faço e que me movem.

O medo me faz ter cautela.
A coragem me impulsiona.

E quando me proponho a ir mais além, 
a tentar buscar o fim daquela raia e me apavoro pelo medo, na ida,
Na volta, eu me encho de coragem e dou o melhor de mim, 
acreditando que é um ensaio de uma nova tentativa e que sairei vencedora.

E assim construo o meu exercício.
E assim percorro as raias, braçadas leves, lentas, 
deslizando naquela superfície tão rígida para mim, por ser novidade, 
mas tão fluida, refrescante, prazerosa.
E assim vou aprendendo a respirar. 
Respirar para me deslocar nesse meio diferente.
Respirar porque sou peixes, 
e  quero que o mar seja minha casa.

Depois de muito tempo,
Eu quis entrar por vontade própria.
E assim é no mar.
E assim é no amor.
E assim é na vida.
E eu quis entrar, de cabeça.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Aprendizagem com o vento

Sempre caminhei rápido  e firme,
Mas hoje resolvi caminhar com calma.
No mesmo calçadão  em que corro pelas manhãs,
Desfilo à noite, em passos calmos.
Calmos, mas firmes.
Decididos.
Hoje à  noite ventava muito. Muitos nós.
Enquanto  meu corpo vencia o vento,
Que passava arejando meus pensamentos,
Meu caminhar era compassado com os meus planos.
Faço  planos lentos.
Explico.
Sou sempre muito acelerada.
Pensamentos, palavras e ações.
Mas não tem dado certo.
Resolvi mudar.
E mudar como o vento, que é fluido e tudo preenche.
Resolvi ser maleável, como o vento.
Que não tem forma, mas está  presente.
Então,  desfilei calma, passos firmes.
Cabeça erguida.
Sou vento forte.
Sou forte.
Sou.
E pensava nos meus planos lentos.
Quero ter calma, desfrutar a vida.
Agora, cada segundo conta.
Quero aproveitá-los todos.
Para mim. De mim. Comigo.
Nesses planos lentos,
Cabe um olhar distante,
Cabe um beijo quente,
Cabe passear de mãos dadas,
Cabem conversas sem fim,
Cabem sorrisos de mim,
Cabem suspiros assim:

... ... ...

Meus passos são firmes,  decididos,
Mas são fachada de um coração
Mole, bobo, sonhador.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Coleção de beijos...

Do meu amor, quero uma coleção de beijos...
Coisas boas de pensar
Quero aquele sorriso lindo, quero um abraço longo
Eu vou dar aconchego, vou dar meu colo, vou dar carinho
Quero dar o melhor de mim
Vou dar confiança, respeito e leveza
Vou aprender o que eu não souber e vou estar presente
Do meu amor, quero a paz e o desejo
Quero aquele peito largo, para eu poder recostar
Quero respirar livre, suspirar
Eu vou dar a minha mão para uma caminhada
e minha disposição para andar ao seu lado
Do meu amor, quero a voz doce,
Falando meu nome para eu poder despertar
Eu vou dar a minha presença, a minha constância
e a hora certa em que vou chegar
Do meu amor, quero momentos - um de cada vez - já que ele ainda não está inteiro
E eu vou beijar os seus olhos para que aquelas dores passem
E eu vou me dar por completo
E eu vou segurar a sua mão
Do meu amor, quero no mínimo um beijo e no máximo um amor para a vida inteira
 - e tudo o que couber nessa gradação
O meu amor não quer me decepcionar e não quer que eu crie expectativas
E eu o quero ainda mais por isso
Eu vou aprender a esperar
O meu amor às vezes é triste, e alegria eu quero dar
O meu amor me conhece pouco e ainda receia chegar
Eu vou dar o tempo de que ele precisa para poder se recuperar
Do meu amor, quero uma coleção de beijos...
coisas boas de experimentar


sábado, 15 de outubro de 2016

O fotógrafo

Era início dos anos 70 e o menino tinha apenas 8 anos. Nem ele mesmo

sabia, mas já era um fotógrafo de mão cheia. Digo, de visão cheia.

Contemporâneo de Glauber, sem sequer conhecê-lo, compartilhava daquela

máxima romântica: uma câmera na mão e uma idéia na cabeça.

Com a maquinazinha ganhada no aniversário de 14 anos, o menino de short e

sem chinelos andava pela parte velha da cidade. Andava pela beira do rio,

andava pelas mangueiras, andava pelos lados da rodoviária e da ponte (será

que já existia a ponte?) e clicava tudo o que lhe chamava a atenção.

Na viagem para Porto Seguro, com os colegas da oitava série, estilo bate-e-

volta, lá foi ele com a pequena câmera a tiracolo. Fotos P&B, quadradinhas,

com as bordas repicadas, bem ao estilo da época, fizeram a reportagem

daquela viagem histórica. Garotos e meninas com calças boca de sino e batas

coloridas tiveram a alma e os sorrisos arrebatados em sépia, no qual se

reconhecem retratados até hoje.

Teria sido ali traçado o seu destino? Ele já teria a visão de seu futuro? Seus

horizontes se ampliariam como numa panorâmica?

Mulheres novas e velhas, mães trabalhadeiras, artesãs amassando o barro e

aquecendo o forno, rezadeiras, mulheres plantando e colhendo, lavadeiras da

beira do rio, escrevinhadoras de biscoito povoam o olhar desse menino.

Assim como as crianças, muito sorridentes, curiosas, jogando bola, empinando

pipa, correndo atrás dos cachorros e das galinhas, brincando com bonecas

quebradas, fazendo boizinhos de ossos, fazendo rolar latinhas velhas de

goiabada... crianças em grupo - saindo do grupo escolar - crianças com pureza

no olhar e que se transformam pelas lentes do menino.

E os homens? com seus chapéus de feltro tentando se proteger do sol,

enrugados, parecendo mais velhos do que são, cavalgando,

tropeirando, tocando seu gado magro, na lida, plantando o feijão no pó...

garimpando, arando, fazendo seus cigarrinhos de palha, vendendo seus

produtos no mercado, jogando cartas, tomando suas cachacinhas nas budegas,

lá pros lados do seu Lidirico...

Os personagens do menino são muitos, mas são um só. Os personagens e o

menino são feitos do mesmo barro daquele vale e a um só tempo se

transformam no imaginário coletivo de todo um povo sertanejo e

redundantemente forte.

Deve ser por isso que o menino não aguenta a lonjura, a distância. Deve ser

por isso que o menino quer voltar. Deve ser por isso que o menino se perde

nas ruas grandes da cidade... Que é do menino franzino de short, saindo da

boleia e divisando o futuro?

O menino é o fotógrafo que olha o mundo por um quadradinho; que tem,

aparentemente, uma visão limitada. Mas quando ele nos deixa ver o resultado,

como se amplia! Como se agiganta o menino!

****

Escrevi este texto há uns cinco anos, mais ou menos, mas nunca o dediquei a quem devia... Apesar de ter inúmeros amigos fotógrafos (sintam-se todos homenageados!), este texto é dedicado a um único fotógrafo, que já foi muito importante na minha vida, com quem eu aprendi a olhar a vida de muitos modos, de vários ângulos, sob inúmeras perspectivas... e vou ser sempre grata, apesar de tudo, acredite!

O Dia do Fotógrafo é comemorado em 08 de janeiro, mas pra mim, vai ser sempre no dia 17 de outubro. E que comecem os festejos!!!!! Para O.F., com carinho!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Mestre Álvaro

O Mestre Álvaro é um maciço granítico, com 833 metros de altitude, de onde se pode avistar toda a região metropolitana de Vitória, além das cidades vizinhas e o Oceano Atlântico.
Durante séculos, os grandes navegadores e as pequenas embarcações têm se guiado por ele. Há citações cartográficas desde o século XVI. E eu vejo o Mestre Álvaro, todas as manhãs, da minha varanda. Ora nítido ora envolto em nuvens ele está lá, me guiando, me dando um norte. 


Tenho acordado cedo, bem cedo
Posso olhar o parque e ouvir os pássaros
Posso olhar ao longe e refletir
Posso respirar e ter calma
Posso pensar na vida e dar paz ao meu coração
Posso ver o Mestre Álvaro enevoado
Posso pensar no ciclo da vida
Recomeços - com medos e avanços
Confiante - mas sem expectativas
O dia a dia
Posso observar uma florzinha nova, uma folha caída
Posso cheirar o ar
Respirar a vida,
que renasce e floresce
Posso me sentir feliz nessas pequenas coisas
E grata
Por isso é bom acordar cedo
e acordar para a vida
Posso confiar em mim
Posso acreditar em mim
E eu gosto
Aprendi a gostar
Aprendi a desfrutar

Meu lar é onde avisto o meu guia... eu sigo em sua direção e não estou mais perdida. O Mestre Álvaro me chama de volta pra casa e posso fincar os pés no chão.


domingo, 2 de outubro de 2016

Pedra, papel e tesoura...

Why did a fucking boy called me a baby and a man who I desire cannot see me?

É com pensamentos como esse que tenho que lidar - e não sou apenas eu - e isso é o que me consola.
Quem mais tem o seu coração partido, queimando, diariamente, sem saber o que fazer e como conseguir rodar o dia?
Quem mais vive e respira pisando em nuvens, enquanto interage com máquinas?
Quem mais tem a alma frágil, esgarçada, enquanto sorri ao executar suas tarefas?
Quem mais se exaspera com o momento político, mas tenta se sentir acalentado com o bom da vida?
Quem mais faz as contas do fim do mês fecharem, enquanto realiza pequenos milagres diários?
Quem mais precisa ser duro em casa, no trabalho, nas suas decisões, enquanto bastaria apenas um colo e um afago?
Quem mais se estressa com uma correria sem fim, enquanto gostaria de andar a passos lentos, em uma slow life constante?
Sou apenas eu?
Quem mais ama sem ser amado?
E é com pensamentos assim, mixados de dor e esperança, que eu sigo.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Rebirth

Relatos
30 dias e vivi uma década.
Neste mês, vivi mais que em outros tempos...
Muita coisa mudou. 
Muita coisa mudei. 
Dentre as experiências, 

Rebirth.

E sou grata.
 Hoje, contemplando os prédios da avenida,
pude sorrir, vendo as outras pessoas. 
Eu escolhi estar aqui.  
Eu decidi estar aqui. 
Uma ponta de vaidade surgiu em mim, 
por estar onde quero e pelo sucesso. 
 No começo do mês eu me apaixonei duas vezes.
Uma pelo outro, outra por mim.
 Já havia me sentido assim, é claro.
Mais de uma vez, até.
Mas é sempre, é sempre diferente e melhor agora.
E quero me sentir assim de novo e mais vezes.
E quero me sentir assim sempre. 
Quero ter vontade de rir na rua a ponto de ter que disfarçar o riso solto quando alguém caminhar na minha direção... 
quero me sentir leve, flutuando em algodão,
ao dar minhas passadas de encontro ao amado..
quero me sentir linda, feromonizada, pupilas dilatadas... 
quero que todo o meu corpo fale em voz alta, 
porque minha boca, 
minha boca apenas vai murmurar no ouvido dele... 
e o tempo irá parar de novo. 
Ao me apaixonar pelo outro, 
eu me apaixonei por mim mesma de novo. 
E foi bom! 
Fazia tempo que não me sentia assim, muito tempo.
Eu me senti forte. 
Eu me senti leve. 
Eu me senti livre. 
Eu me senti linda. 
Eu me senti melhor. 
Eu me senti mulher. 
É bom saber disso.
É bom crer nisso. 
É bom acordar bem. 
De bem.

Mas  –  e tinha de haver um mas? – e se durar pouco... se durar nada perto da minha sede... se durar um intervalo de tempo entre a dúvida, a certeza, a dúvida de novo e a certeza de novo?
Vou restar forte, quedar-me de pé, mas querendo ser fluida, querendo ser lágrima, querendo ser gozo, querendo perdurar essa sensação.

birth  -  rebirth   -  a vida que tive  -  a vida que tenho  -  a vida que quero 

 a vida  


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Amores

Eu já tive um amor para quem eu escrevia:
Comprar o pão,  pagar as contas...
E esse amor parou de ler os meus  bilhetes
E isso destruiu aquele amor

Eu já tive um amor para quem eu me dedicava:
Fazia o pão, sanava as contas
E esse amor parou de de mim se ocupar
E isso destruiu aquele amor

Eu já tive um amor para quem eu me cuidava:
Evitei o pão, não pensei nas contas
Mas esse amor parou de me notar
E isso destruiu o meu amor

Eu já tive um amor para quem eu pouco me lixava:
Pão? Contas? Nem era amor!

Eu já tive um amor com quem eu sonhava:
Ah! E o que eu mais queria era falar bobagens naquele ouvido!
Queria sentar no seu colo e falar bem de mansinho
Tudo, tudo, tudo, tudo o que eu iria fazer
Queria falar de mim e do meu desejo sem fim
E não vou contar mais nada
pra deixar todo mundo curioso!



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Minha prima é escritora

Não de verdade. Não sempre. Mas por um período pequeno de sua vida, minha prima exerceu o ofício de escritora. Narradora epistolar, mais precisamente.

Várias décadas atrás (eu nem tinha cinco anos) meus pais e eu nos mudamos para uma cidade do interior. Durante doze meses seguidos, semana após semana, minha prima nos escreveu cartas. 

Recentemente, minha mãe, ao "destralhar" deparou-se com envelopes esparsos, daqueles, verde-amarelos, cujo remetente ainda constava a antiga Rua Jardim Tropical... ainda rua de terra, na qual o carteiro nem ia. 

Escrever naquela época dava um trabalhão danado... as pessoas tinham de ir até os Correios, levar e buscar suas cartas e encomendas. Pois bem, em vez de "destralhar" aquilo tudo, minha mãe juntou uma a uma essas cartas e colocou-as em ordem. Surpresa: o relato familiar de um ano inteirinho.

Na ocasião, a família toda não passava de umas 15 ou 20 pessoas... imigrantes que somos, justapostos uns aos outros, sempre moramos juntos, vizinhos. E o fato de três de nós se afastarem significou alguma coisa. Bem, pelo menos gosto de pensar assim. Os motivos dessa mudança? Nunca soube. Mas isso já é tecido para outra história... e nem importa mais.

O caso é que minha prima escreveu. Sua narrativa é clara, límpida, objetiva e direta. Sem nenhuma nem qualquer intenção, esses textos, ora datilografados ora na sua letrinha miúda de adolescente dos anos 70, relatam fatos tão corriqueiros quanto importantes.... para mim...

Minha prima escritora contava as coisas que tinham ficado: como tinha sido seu dia na escola, o que iria comer no almoço, quem havia ficado doente, por quantas horas o telefone havia ficado mudo, qual era a novela da época, qual parente distante havia se mudado, qual a cor do casaco novo, e mesmo expressões que até hoje ela usa, assim tipo:"paciência!", enfim, tudo o que lhe viesse à mente e mais tudo quanto meus avós, tios e primos lhe pedissem para contar. Fatos corriqueiros, dotados, porém, de uma importância visceral. 

Minha avó devia ser muito ocupada, pois sempre mandava lembranças e dizia que não tinha tempo. Meu avô era incumbido de levar as cartas e ficava pressionando para que ela acabasse de escrever logo... punha seu fusca branco a funcionar e lá ia o BB7012... fazendo fumaça, levando histórias. 

Quando eu me deparei com esse pequeno tesouro íntimo, ficou na minha cabeça uma névoa. Eu, que sempre me senti "tantas vezes reles, tantas vezes vil", assim como o Pessoa; eu, "que tenho sido uma fraude em tudo", também assim como o Pessoa, eu, que me queria escritora desde sempre e não o fui... por que esperar mais? Quais propósitos eu espero? Quanto mais de mim eu vou ter que ler em vez de escrever? Por isso - e uns outros tantos fatos também - resolvi continuar. Resolvi assumir agora essa escrita, afinal, venho de uma família de escritores...



sábado, 17 de setembro de 2016

Todo dia

Eu vou correndo de braços abertos
Só pra te abraçar
Minha boca só te quer
Só te quer beijar
No meu caminho eu penso em você
Eu vou correndo
Olhando o mar
Eu saio correndo  à noite
Pra te encontrar

A noite é  escura agora
Agora que eu não tenho a certeza de te encontrar

Mesmo assim saio correndo à noite
E minha boca só te quer falar
Que em meus sonhos
Você vem
Você vem me amar

Minha boca só te quer
Só te quer beijar

Meu corpo só te quer
Só te quer amar

Meu peito

Neste momento,  ligo a função  retro do aspirador.
Pelo mesmo furo fino de punção, por onde entrou tanta mágoa, acumulada durante anos, sai, agora,  por uma cânula grossa, toda a toxina de minhas lembranças transmutadas.
Saiu o sangue e saiu o fel, e por isso me sinto assim, diferente.
Mas ainda não saiu tudo, estou em processo, está saindo em forma de palavras.
E elas estão amarradas uma a uma, longa corrente encadeada, tecida e retorcida nas minhas memórias.

Meu peito.

É nele que sinto as palavras saindo.
Umas puxando as outras para que eu possa me sentir leve, livre, outra.
E mesmo que elas - ainda - não digam nada,  esclarecem muito de mim para mim.
Elas me desentopem.
Elas me desobstruem.
Elas me salvam.
Tenho que gastá-las muito.
Deixá-las sair para que eu possa chegar ao centro de mim, ao que de mim se mostrará primal.
Ainda vai levar um tempo.
E eu vou puxá-las todas com muita força,  até  que eu me sinta satisfeita e feliz,  porque se eu não me esvaziar de mim, eu não vou mais aguentar.